Pêlo na Venta desabafa | “Conheci um dos meus ídolos da banda Anathema e fiz figura de urso”

Quem me conhece minimamente bem, sabe que adoro a banda Anathema. Sou fã há já uns 10 anos… Uma fã que, de todos os concertos que eles deram ao longo da sua carreira, esteve presente em… nenhum. Uma fã de merda diriam vocemecêses, portanto.

Depois de me ter armado em coninhas e ter perdido a oportunidade de os ver já aqui ao lado no VOA, no conforto do meu Portugal, em boa companhia e com um cartaz espetacular – um minuto de silêncio por isto, que ainda não me perdoei – aqui a Dani decidiu viajar completamente por sua conta para o Reino Unido, para um festival do qual nunca tinha ouvido falar, com bandas que não vêm no meu dicionário musical, e vê-los numa quinta, no cu de Judas…

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Sobre esta viagem, posso já adiantar que fui altamente protegida pelos deuses da sorte, mas não sem sofrer alguns minis ataques cardíacos e ter feito figura de parva qb. Um balanço extremamente positivo. E para vos conseguir transmitir a emoção do vivido, separei esta história em 3 partes, com algumas passagens no idioma original para que a coisa se possa manter o mais real possível:

1. Notas iniciais

• Depois de decidir finalmente que este era o ano em que os iria ver, consultei a lista de datas dos próximos concertos e tinha 3 à escolha: Polónia, Islândia ou Reino Unido. Excluo a Islândia because orçamento e faço contas à vida para os ver na Polónia. Contas feitas… excluo a Polónia, sobra Reino Unido. #lifeonbudget

• Participei numa espécie de giveaway anunciado na página do festival no Reino Unido (ArcTanGent) para ganhar um pass de 3 dias, como quem joga no euromilhões – aquela relação de 99% descrença vs 1% esperança. Ganhei o pass. #luckybitch

• Como só queria mesmo ver Anathema (e como ia sozinha) decidi não ir os 3 dias por causa da logística de acampamentos e afins. Isto implicou viajar no dia do concerto e regressar na madrugada seguinte. Sim, não reservei estadia. Em vez disso aluguei um autocarro por 28 libras das 2h25 às 05h00 da manhã. #savingmoney

• Como estou em modo poupança optei por viajar na condição de Standby (não façam isto se sofrerem do coração), o que traduzido quer dizer que paguei apenas 47 libras pelo bilhete de ida e volta mas:

  1. tive de ir para o aeroporto de Gatwick, que fica a mais de 240 km do destino final;
  2. só saberia se tinha lugar no voo depois de toda a gente embarcar, caso houvesse alguma vaga. #deusnocomando

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2. A viagem

12h30: “- Então, tens tudo pronto? Já te estamos a imaginar lá, toda tola. Leva um soutien bonito para o caso de ficares muito entusiasmada e decidires tirar a t-shirt” – Ah!… as minhas amigas conhecem-me tão bem.

00h00: Começo a preparar as coisas. Moro a cerca de 1h do aeroporto e como o voo é de madrugada e vou voar como Standby só posso fazer check-in no dia, ao balcão. Decido não dormir porque por volta das 3h da manhã estou a sair de casa.

04h40: “- O voo está cheio menina, mas aqui no Porto há sempre alguém que adormece. Pode ser que tenha sorte.” Primeiro mini ataque cardíaco, check. Mas como o senhor previu, tive também o meu primeiro golpe de sorte: Tugas que adormecem e chegam atrasados aos compromissos, deixo aqui o meu mais sincero obrigada. #luckybitch #partII

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06h40: Porto -> Gatwick – Embarco sem problemas e dou três pulinhos de alegria porque, f#cking hell, this is really happening!

09h30: Gatwick -> Bristol – Estou a tentar comprar os bilhetes de autocarro e o Paypal diz-me de forma simpática to f#ck off. Lá consigo fazer a reserva com cartão, mas não sem antes ter perdido o autocarro que me levaria a Bristol em horas decentes.

11h40: Apanho o autocarro que era suposto chegar a Bristol por volta das 15h30, mas os ingleses não percebem bem como funcionam as auto-estradas com mais de uma via e comportam-se numa estrada com três faixas como os tugas nas caixas dos hipermercados – saltando de fila em fila, a ver qual despacha primeiro. Está um trânsito do caraças e puts queue os pariu (uma salva de palmas para esta piada).

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17h00: Bristol -> ArcTanGent Festival – Cheguei a Bristol mais de 5 horas depois, com o rabo adormecido, as costas espalmadas e os primeiros sinais de cansaço a espreitar, quando ainda nem sequer tinha começado a aventura a sério.

Próxima missão: arranjar taxi pois a esta hora já não há shuttle bus que me salve. Quando digo ao taxista para onde quero ir, diz-me de forma simpática to f#ck off. Lá arranjo outro taxista – o Shawn – disposto a levar-me para o cu de Judas e que gentilmente se oferece para me ir buscar às 00h00.

Na viagem, eu e o Shawn falamos sobre as beautiful portuguese bea(it)ches e as wonderful british cows.

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18h00: Chego ao cu de Judas, também conhecido como Fernhill Farm. Não há net e mal há rede mas não me preocupo porque o taxi já está combinado para o regresso e não preciso de fazer stories para o Instagram porque… I’m living the dream e isso é tudo o que importa.

19h40: Concerto de Anathema. Este é um ponto especial por isso decidi reservar um tópico só para esta parte – ler ponto 3.

23h30: Ainda consegui ver Glassjaw mas começa a ficar um frio do caraças e já só quero ir embora. Depois de várias horas sem dormir, estou mesmo cansada. Chega a hora de ir para o ponto de encontro combinado com o taxista e… nem sinais dele.

00h15: ArcTanGent Festival ->Bristol – Começo a ficar preocupada e fazer contas ao tempo necessário para decidir se espero ou se chamo outro. Decisions… Decisions… Ora onde se junta um português, juntam-se logo dois ou três e encontro mais dois tugas sem taxi para vir embora. Pergunto na nossa língua para onde vão e lá dizem que vão para Bristol. Ligo ao taxista que afinal já está a chegar.

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Olham para mim como se eu fosse um anjo salvador mas, na verdade, eu é que fui salva de uma viagem de 30 minutos, no meio do mato, sem iluminação pública, comigo e com o Shawn a conversar sobre a fauna e a flora portuguesas vs britânicas.

00h45: Chego a Bristol, completamente estourada, cheia de sono e começa um show de posições para dormir, um verdadeiro kama sutra nas cadeiras da sala de espera. A minha cabeça parece a de um metaleiro a fazer headbanging em câmara lenta e os meus olhos parecem ter estrabismo convergente de 50º. O autocarro chega e eu, ainda meia a dormir, levanto-me e tento andar, como se estivesse numa espécie de batalha para sair de uma hipnose profunda. E a partir daqui, os sinais de enfarte começam a aguçar.

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02h25: Bristol -> Gatwick – Adormeço na viagem. Acordo sobressaltada numa das paragens com a sensação de que já deveria ter chegado. Atarantada pergunto: “Is this Gatwick North or South?”, ao que o condutor responde: “Terminal 4”. Volto para dentro do autocarro porque ainda me falta uma hora de viagem. Quase ficava no aeroporto errado e a hipertensão começa a dizer olá.

05h00: Chego ao aeroporto. Faço o check-in e adivinhem… o voo está cheio. Mas não vamos panicar já, até porque acabei de perder o meu cartão multibanco no caminho para o controlo de segurança mas um inglês simpático veio a correr atrás de mim para mo entregar. #luckybitch #partIII

Como ainda tenho tempo, vou só pagar quase 8 euros por um croissant misto e uma amostra de café e depois dormir um bocadinho sobre o assunto. Mais uma sessão kama sútrica com as cadeiras. Esta mais tântrica.

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8h30: Acordo mais uma vez como quem acabou de ter um pesadelo (do tipo, ficar sem voo de regresso) e vejo que o voo para o Porto já tem gate definida: 107. Como sei que não há lugar no avião, durante a caminhada para a porta de embarque faço o que posso: rezo um pai-nosso para que alguém chegue atrasado e pergunto-me sobre o que diria o meu horóscopo para o dia. Parece que os astros estão alinhados e a senhora chama-me porque consegui lugar no voo.

Só que não… Dou-lhe o boarding pass: “I’m sorry, I have a seat for you but this is not your flight, darling. Please go to gate 53, they should be boarding already. Enganei-me no voo e como estava completamente bêbada de sono nem olhei direito para as horas para perceber que aquele avião era o das nove e qualquer coisa.

A gate do meu voo é do outro lado do aeroporto mas desta vez olho para as horas e… modafóca, Jesus help me. Dani inicia uma corrida de meio-fundo até à porta 53 com os elevadores a armarem-se ao pingarelho, porque aquilo de que eu preciso neste momento é de um pouco mais de emoção na minha vida.

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Estou na gate 53 e não está lá ninguém a não ser o jovem do balcão. Penso o pior: Não cheguei a tempo e já embarcaram. Mas o jovem dá-me uma boa e uma má notícia: A boa: o embarque ainda nem sequer começou; A má: o voo está sobrelotado.

“We have a problem. The flight is overbooked and I have another standby passenger.”  O que traduzido para miúdos quer dizer: f#deu! Há 3 passageiros a mais que lugares no avião e é preciso um milagre para eu embarcar. Eu e a outra passageira vamos trocando olhares, como se estivéssemos num descampado algures no Texas, num duelo sem contacto físico, a ver quem tira primeiro a pistola do coldre, mas sem mãos. Só com os olhos.

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Não há mais nenhum voo da companhia naquele dia. Só terei voo no dia seguinte caso a coisa corra mal, o que tendo em conta os factos, é muito provável que aconteça. A coisa está a ficar feia para o meu lado. Começo a enfartar à séria.

Começo também a equacionar passar a noite no aeroporto ou pagar mais de 200 euros por outro voo, já só quero ir para casa.

O jovem do balcão chama novamente e diz que existe um lugar porque o senhor que estava overbooked não apareceu. O problema é que nós somos duas.

“Miss Daniela, the seat is yours because you booked the flight first!” #luckybitch #partIV

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10h40: Gatwick -> Às 14h00 chego finalmente a casa com duas certezas. 1: Nunca mais viajo na condição de Standby; 2: Vou ter de voltar a ver um concerto de Anathema…. e porquê? Pelo seguinte:

3. O concerto

A banda anterior está a tocar e o recinto ao rubro. Começo a aproximar-me do palco para ir tentando furar o público e conseguir lugar na 1ª fila. O concerto anterior acaba e eu dou tudo para conseguir um lugar mesmo no centro. Não haverá bexiga que me distraia desta missão!

– 5 segundos depois o recinto está vazio –

Well… that was effortless. Estou eu e mais duas pessoas sozinhas, não só com a 1ª fila livre bem como com todo o recinto só para nós. Uma rapariga: estudante polaca de neurociência em Bristol, muito simpática; Um rapaz: britânico de gema do qual não me lembro nem metade do que disse, trabalhava com finanças, um pouco bêbado.

Começo a vislumbrar os meus meninos por trás das cortinas do palco e tento conter a groupie que há em mim. Entram no palco um a um para o teste de som e, como sou uma senhora, porto-me bem sem fazer nenhuma cena de histeria – só falo sozinha. Tudo a postos e começa o show.

Abrem com a San Francisco do albúm The Optimist e os meus olhinhos emocionam-se. Por tudo. Por estar ali, por ser a primeira vez que os vejo em pessoa, por ser o primeiro concerto, por ter viajado milhas e horas por aquele momento, porque estou mesmo ali fisicamente e aquilo está mesmo a acontecer e pela quantidade de sensações que estou a absorver.

Apenas a uns metros de mim estão aqueles artistas que tanto admiro, há tanto tempo e cujas músicas já me fizeram sentir tantas e tão variadas emoções.

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Algumas dificuldades técnicas no som (normais em festivais em que o check-sound é feito praticamente em live) não me impedem de vibrar com cada música e de estar a ser uma experiência que vou recordar durante muito tempo – provavelmente para sempre.

Quando estava ali no pináculo da emoção e do vibramento, o Danny (vocalista/ guitarrista da banda) anuncia a última música. Nãaaaaaao! Como assim, já vai acabar? Foi como se tivessem posto à minha frente um banquete de queijos e enchidos e só me tivessem deixado comer o pão.

É claro que queria mais… Queria mais música, queria backstage, queria falar com os membros da banda, queria dizer-lhes o quanto admiro o trabalho deles… mas não deu. Não sendo cabeça de cartaz, quando dei por mim, o concerto tinha acabado and they were gone.

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Sinto a adrenalina a sair-me do corpo e subitamente um cansaço avassalador. Fui buscar um chá de cafeína (não lhe posso chamar café por razões óbvias) e caminho pelo recinto, usando o copo do chá para aquecer as mãos. Reparo que pareço um dos idosos que fugiu do lar para ir ao festival, enquanto penso no que acabei de viver…

Quando olho para o lado, encontro um membro da banda sozinho. E ali estou eu, com a oportunidade de dizer coisas bonitas e agradáveis e de lançar um charme de fã adorável. A vida é generosa. Apesar de não ter tirado a t-shirt (estava frio) lá sorri e preparo o discurso para meter conversa.

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“Obrigada pelo concerto. Admiro imenso o vosso trabalho. Acho que todos são verdadeiros talentos e nem acredito na oportunidade de estar aqui a falar e conhecer-vos em pessoa. A vossa música diz-me muito e viajei durante horas por este momento. Embora o concerto tenha sido curtinho, totally worth it. Parabéns pelo vosso trabalho e carreira.” – Isto seria o que gostaria de ter dito.

Eis o que fui capaz de dizer: “errr não foi bem o que estava à espera, foi pouquinho tempo de concerto e o som não estava muito bom.”

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Aparece outro membro da banda (eu estava mesmo com sorte, tenho uma segunda oportunidade de recuperar) e este diz ao segundo: “she was saying that it was shit.”

Nãaaoo! O meu ego está com vergonha de mim própria e já estou com medo de falar em inglês porque sei que me vou enterrar mais… Ainda anestesiada pelo meu discurso de cocó, eles lá se despedem e eu respondo, meus caros, com um fantástico: “Congratulations!”

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A sério, Daniela? con-gra-tu-la-tions?… é esta a palavra escolhida? Perdoem-me pelo que disse, estava cansada e nervosa. Na verdade, a única coisa que foi a real shit was my shit-chat. À conta disto, as minhas amigas têm um novo tema de conversa e não perdem uma oportunidade de me felicitar, a toda a hora, por qualquer motivo!

“Congratulations and a happy new gig!”

Tirando isto, esta foi sem dúvida uma aventura emocionante! Não trouxe uma fotografia, tão pouco o bilhete assinado, mas prometo que irei a mais concertos e desta vez vou tentar perceber em que situações se deve dizer “Congratulations” ou “Nice to meet you”.


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