futsal

Pêlo na Venta experimenta | Guarda-redes de Futsal

Não, nem todas as mulheres a jogar à bola parecem um bando de moscas à volta de um bolinho de cocó (sem glúten). Na verdade, uma equipa de futsal feminina assemelha-se a uma, bem coordenada, banda filarmónica em pleno desfile: As da frente fazem os truques, as do meio enchem a parada e as do fim só tocam quando é necessário. Há ainda o público que para sempre para apreciar (se este para vs para vos confundiu, estudasses. #AcordoOrtográfico).

Estava eu sossegadinha da vida, a tentar não reprovar a Fisiologia do Exercício e Biomecânica, lá em 2008-2009, quando a Sílvia, uma amiga, colega de curso e treinadora da equipa de Futsal, me convida para entrar na equipa feminina dos Pioneiros de Bragança:

Sílvia: – Gostava que fizesses parte da equipa.
Dani: – Mas eu não sei jogar à bola…
S: – Mas és muito divertida, ias fazer a diferença…
D: – Ah! Queres que faça de mascote?
S: – Não, estava a pensar que podias ser guarda-redes.
D: – Tipo, ficar a guardar a rede, a ver se não tem furos? Mas isso é parvo porque uma rede sem furos, já não é uma rede…
S: – Vês, és mesmo engraçada! Vens ao próximo treino?

i-chose-you

Quando dei por mim, já estava em frente à baliza a tentar não levar com as bolas na cara. Na verdade, no início, nem sequer era levar com as bolas na cara o que mais me preocupava, era mais tentar manter o contacto visual com elas, pois eu fechava os olhos e encolhia-me toda assim que elas vinham na minha direção – que descrição linda! Eu sei, estou a pedi-las. Controlem-se.

Sempre que uma das meninas da equipa rematava, eu tinha um ataque epilético. Contorcia-me como quem está a ser eletrocutado. Não sei como é que nunca fugi da baliza depois dos remates. Ah, já sei como… nunca dava tempo de correr.

É defesa com o calcanhar estilo coice, como quem dá aquele pulinho ao entrar em água fria; é defesa com as pontas dos dedos porque estava a gritar e a acenar com as não “Não chutes com força, por favor!”; é defesa com a anca porque se me puser de lado, a área de contacto é menor, logo vai doer menos; é defesa nenhuma porque não consigo fazer mais gestos involuntários e é vê-las a entrar… uma atrás da outra – Controlem-se mais um pouco.

A esta altura, a Miss (que é o Mister no feminino), já está a considerar o convite, mas agora já é tarde e não me pode “desconvidar” porque entretanto eu meti na cabeça que vou conseguir tornar-me uma guarda-redes e já sabem como é: quem dá e volta a tirar, ao inferno vai parar.

Pedi ajuda a mais colegas e vamos lá treinar essas defesas, em vez de ir beber copos para o Inova Kafe – um bar que era o meu apeadeiro diário.  De tanto levar com elas, começas a habituar-te – como é que eu posso falar de levar com bolas sem que a vossa mente seja porca? – e começo a ficar melhor naquilo. Já faço atiranços e o carai… e compro o primeiro par de chuteiras… ou sapatilhas de futsal… e isto agora já começa a ficar a sério.

Lá começo a ir aos jogos do campeonato distrital como guarda-redes suplente. Faço da guarda-redes titular uma rainha, protejo-a, mimo-a e evito a qualquer custo que lhe aconteça alguma coisa e rezo em todos os jogos para a Miss não precise de a substituir.

Eu tinha a mesma vontade de entrar em campo que um bebé tem de comer a sopa quando está com birra de sono. Até que chegou o dia.

Estávamos a jogar com uma equipa que estava a perder por mais de 30-0, e que por motivos de vergonha alheia não vou identificar. Ora, a Miss olhou para o relógio e a 10 minutos do fim do jogo, não devem haver assim tantos remates à baliza tendo em conta a média até agora. “Dani, vais entrar, ok? Vai aquecer!”

Plano A: Vou simular que caí e torci um pé no aquecimento e assim já não jogo;
Plano B: “Alguém tem fome? Posso ir buscar pães com chouriço para todas!”;
Plano C: F#di-me!

Lá vai a Dani para a baliza… Podia ter levado uma lima, um corta-unhas e um esmalte endurecedor que quase dava tempo para tudo. Elas não passam do meio campo! “Oh wait! … estão a passar do meio campo… ehrr…. aquela jovem está a ficar muito perto de mim! M€rd@, vai rematar…” e rematou, mas eu lá apanho a bola. Defendi sem querer. É um dom.

A minha equipa enlouquece! Gritam o meu nome, batem palmas, atiram-me flores e ainda consigo ver e ouvir os adeptos adversários suplicarem para eu deixar entrar uma – parem de ser porquitchónes –  eles só queriam gritar uma vez golo, mas eu não facilito. E faço aquele olhar convencido como quem diz “#Xupa! e como quem sabe o que acabou de fazer.

No matter how many goals you save, people always remember the one you miss. – Unknown

E por acaso lembro-me bem de um que sofri. Não lhe posso chamar de golo sequer, vou-lhe chamar antes uma tainada com direito a churrasco, siéquemintendem.  A Miss lá me atira aos lobos mais uma vez porque que quem não pratica, deus não ensina (cá’ganda quote) e nisto…

Vem uma desalmada a correr para o nosso meio-campo e acontece aquilo a que chamamos de contra-ataque que resulta numa “situação de um-para-um”, situação essa em que me ensinaram que devo sair da baliza pois, se ficar lá, tenho tantas probabilidades de defender o remate, como de tentar defender um penalti.

Então eu saio! Lá vou eu a esgaçar para o meio campo, a bola vem a rolar já ali na nossa metade de território e a rapariga uns 3 metros atrás dela, também a dar ao sprint. Temos ali 3 episódios, no mínimo, de Oliver & Benji e lá para quinta-feira acabo por chegar eu primeiro à bola!

Mas… dou um mega chuto que, devido ao efeito borboleta, aciona um furacão num estado Americano qualquer, mas acertar na bola que é bom, nem por isso! #PontapéAtmosférico

Foi como se me tivessem deixado pendurada num encontro romântico e eu fico ali, sozinha e abandonada a olhar para a bola, a vê-la afastar-se de mim para longe, lentamente, saltitando com pulinhos delicados em direção à baliza. É. Foi ganda frango!

Volto para a baliza e tento-me esconder atrás de um poste com espessura de 10 cm. Parem de olhar para mim, suas… 600 pessoas! O frango foi tão grande que até o árbitro me diz: “Oube lá, a tua equipa hoje vai comer churrasco!” -.-‘

Mas o universo é generoso e, talvez porque a minha adrenalina atingiu níveis sem precedentes, há um novo remate e eu recupero da vergonha. Por instinto e sem qualquer intenção premeditada, o meu pé direito vai para um lado, o esquerdo para o outro e, em espargata, defendo a bola com a biqueira da sapatilha. Desta vez o árbitro ia-me pedindo o nº de telemóvel. :: wink::

Quando eu achava que tinha atingido o ponto alto da minha carreira futsalística, temos novo jogo fora e, porque tenho medo de sofrer represálias, não digo de onde são as jovens de quem vou falar a seguir:

Esta equipa parece que, em vez de treinar para jogar à bola, treinou para simular faltas e para participar num filme de terror: As fintas delas consistiam em ter uma jogadora a distrair as da nossa equipa enquanto as outras apanham as nossas desprevenidas e lhe pregam sustos, gritando insultos muito feios aojoubidos. Esses mesmo que vocês estão a pensar, e daí para baixo.. ou daí para cima… tanto faz. #essascomedeironas #malcriadonas

O árbitro não faz nada e começam-me a subir uns nervos pela Kundalini acima e eu mesma insulto o árbitro… como se assim fossemos ficar quites, estão a ver? E foi assim que levei um amarelo… no banco… num jogo onde nem sequer entrei em campo.

Dá-se uma balbúrdia em campo e os adeptos adversários começam a insultar-nos, desta vez, sem qualquer estratégia à Scary Movie. Fomos ameaçadas, achincalhadas e do lado de lá da bancada conseguíamos fazer leitura labial para algo que se traduzia mais ou menos em ” Oh p_t_ do c_r_lh_, quando chegares lá fora vou te f_d_r essa cara toda! ❤

Fomos embora escoltadas pela polícia. E dois jogos depois consagradas campeãs distritais. Agora sim, estou realizada!

Gostava ainda de pedir desculpa, apenas mais uma vez, em nome da equipa, pela janela da carrinha que destruímos sem querer na auto-estarda e que nos obrigou a fazer uma viagem de Macedo de Cavaleiros a Bragança como se estivéssemos em Chicago, durante o Inverno, a conduzir um descapotável.


Agradecimentos à minha equipa e muitas saudades deste grupo de mulheres espantosas, com as quais passei grandes momentos que guardo com carinho. Mas para a próxima convidem-me antes para fazer farte da equipa de fisioterapia.

Ajuda o pêlo a crescer!

One thought on “Pêlo na Venta experimenta | Guarda-redes de Futsal

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.