Pêlo na Venta experimenta | Retiro de Silêncio

Ora tentem ficar calados durante 1 hora. Força. Ajuda se estiverem sozinhos em casa. Agora imaginem esta matraca tagarela a ficar em silêncio 3 dias. Fui fazer uma espécie de Vipassana mas para principiantes e agora, como já posso falar, conto como foi…

 

Este é um assunto mais sério e por isso vou tentar ser menos parva que o habitual. Estava a brincar, vou ser parva na mesma mas de forma mais… espiritual.

First of all: O que me levou a fazer um Retiro de Silêncio?

Ora portantos, a modos que, digamos que estava a entrar nos 30 (lá esta, a crise existencial) e senti que precisava de fazer isso mesmo: Retirar-me do mundo. Achava eu que se estivesse uns dias sem falar com ninguém, a não ser comigo mesma, me ia ajudar.

Mas não sei se já repararam bem na quantidade de merdas que dizemos a nós mesmos. Somos um bocado doentios. Dizemos coisas a nós próprios que não seríamos capazes de dizer a ninguém (nem mesmo ao patrão chato no dia em que hipoteticamente te despedes do trabalho porque ganhaste o euromilhões). Aposto que mais depressa lhe cagavas em cima da mesa do que punhas o teu cérebro em alta-voz (até vou por aqui uma quote do TEDx, só para isto ficar bem fancy).

If we put a speaker on your thoughts and broadcast what you say to yourself, we would institutionalize you. Mel Robbins – How to stop screwing yourself over

Ainda assim, pareceu-me uma boa ideia: [Inserir aqui música de fundo do Alta Definição]: Quem sabe se no silêncio me vou encontrar! [Fim da música de fundo do Alta Definição]

Silêncio o caraças pois eu queria era respostas e respostas silenciosas devem ser difíceis de interpretar. E depois isto, por si só, já é parvo porque faria mais sentido caso fosse: quem sabe se no escuro me vou encontrar – Né? Não? Encontrar… no escuro…  Ok. Adiante…

source.gif

E lá fui eu, com três amigas, viajar quase 600km para sul do país, para me retirar silenciosamente. A viagem já começa atribulada porque, como sabes que nos próximos dias não vais abrir a matraca a não ser para comer, queres debitar tudo cá para fora, à mesma velocidade com que debitamos os salários.

 

O que acontece num retiro?

Somos instalados num sítio muito acolhedor e a paisagem… bem… as fotos falam por si. Vês mar, vês natureza e respiras fundo de tamanha criação divina. Estou a falar a sério, as imagens não conseguem retratar o quanto a paisagem é lindíssima, muito menos a paz imediata que sentes.

Olhas à volta e estás tu e um grupo de pessoas ao teu redor de várias nacionalidades que, em outro contexto, facilmente seriam confundidas com uma seita de rituais lunares. Explicam-nos tudo direitinho, acomodamo-nos, entramos no Templo. Não há cá musicas xanti-xanti nem danças a Shiva. Sentas-te e acabou-se o pio e, como não podemos falar, vou deixar aqui um resumo do que me foi ocorrendo lá:

  • Fase 1 – Tomada de consciência do filme em que te meteste

“Devia ter trazido uma almofada para o rabo, vou ficar maçada. (…) Ok, concentrar na respiração e vamos lá meditar. (…) Já me estão a doer as pernas e isto ainda agora começou. (…) Tenho comichão no nariz. (…) Tenho comichão no… Concentra-te Dani, conta respirações. 1, 2, 3, 4, já trincava qualquer coisa, devia ter lanchado melhor. (…) Será que posso esticar as pernas? Posso, aquele senhor está com elas esticadas. Oh shit, o pé adormeceu, se me mexer mais agora vou ginchar. (…) Ainda só passou meia hora? Eu não vou aguentar isto. (…)”

A esta altura o meu estômago é o único a falar ali, e está tudo menos tímido – “No que me fui meter! Não devia ter vindo. (…) A quantos dias ficará isto de distância a pé de minha casa? Pois… quase 5.”

giphy (3).gif

 

  • Fase 2 – Devaneios

Ok, vamos comer. “Só tenho de imitar os que vão à frente” (…) Uh para vegetariano isto está mesmo bom. Ai que fomeca e que rica sopa! (…) Oh que gatinho fofinho!”

Quebro o silêncio e falo para o gato – “Pronto, já fiz merda. (…) Vamos lá ao round 2. (…) Aquele senhor não comeu? Ainda não saiu dali? Como é que ele consegue ficar tanto tempo assim, quieto. (…) Meditar, meditar, concentra-te. (…)” 

De repente estou numa floresta, a andar de patins, e a apanhar morangos de um Choupo – “Meditar, meditar, concentra-te. (…)” 

E de repente estou a surfar uma onda, mas de carro. Tinha galochas nos pés e estava a acenar para a família –  “E se eu começasse a levitar agora? (…) E se eu precisar de papel higiénico no WC? A quem peço, alíás (e há leões) como peço?”

Dá-se o recolher perto das 21h00 e vais para os dormitórios enquanto pensas no que diria Freud sobre os teus devaneios. Aterro que nem uma pedra.

Sigmund-Freud-gif.gif

  • Fase 3 – Modo Zombie

Às 04h00 dela mañana acordas. Isso mesmo, às 04h00. A Lua (é mesmo o nome da menina) toca suavemente uma espécie de mini-gongo que, por incrível que pareça, até dá bom acordar.

Saímos todos em direção ao Templo, está tudo escuro, noite cerrada, um frio de rachar porque é Dezembro e estás no meio de uma serra. Ouves os chamiços no chão a quebrar, o vento a fazer rotundas dentro dos tímpanos e os dentes a telintar como o maior carrilhão da europa.

Somos cerca de 50, no meio do monte, de lanternas empunhadas. Visto de longe deve ser muito giro, tipo um enxame de pirilampos – coisa para dar no BCC Vida Selvagem pois é um evento raro já que estes bichos não costumam andar aos molhos. E enquanto desces a colina rezas duas avé-marias para não dares uma trinca num calhau no caso de afucinhares pela encosta abaixo (os dormitórios ficam num alto).

Paras de meditar às 06:00 e tens direito a ver o nascer do sol em direto enquanto tomas o pequeno-almoço. Às 07:00 voltamos ao Templo e eu… preciso de um espeto para me segurar sentada. A minha cabeça, com a moca do sono, parece que está a dançar o Pimpolho do Irã Costa. E nisto, ouves uns roncos que mais parecem um Didjeridoo desafinado. E reparas que algumas pessoas estão deitadas a ressonar. Ai pode-se dormir? Dani be like:

giphy (4)

  • Fase 4 – Piloto automático

Troca pernas, espreguiça, medita, respira, escuta atentamente a breve palestra para reflexão e introspeção futuras. Almoço. 11h00.

Troca pernas, espreguiça, medita, respira, escuta atentamente a breve palestra para reflexão e introspeção futuras. Jantar. 17h30.

Troca pernas, espreguiça, medita, respira, escuta atentamente a breve palestra para reflexão e introspeção futuras. Dormir. 20h30.

3POyupA.gif

 

Mas afinal quando é que a magia acontece?

Não acontece. Vens-te embora bem mais relaxado, verdade. Mas nada mudou. Voltas com as mesmas perguntas e sem as mesmas respostas.

Passas por uma experiência super desafiante quer a nível mental, quer a nível psicológico e vens com essa bagagem na viagem, enquanto conversas civilizadamente com as amigas sobre como a vida é bela e simples em silêncio.

Momento #cuspidelafilosofal: Em silêncio somos todos iguais. Não há desgraças, notícias, facebook, likes ou partilhas, tão pouco telemóveis ligados. Parece que tudo à tua volta para. Ali não há egos, não há maior ou melhor ou pior. Somos todos gente. Apenas.

A magia (sim, sei que estão à espera do final feliz) acabou por chegar durante a semana seguinte. Tudo aquilo não é a solução, é apenas parte de um processo que, sem te dares conta, te organiza a mente. Tive resposta a duas questões existênciais extremamente profundas, sobre as quais não vou discursar por serem demasiado privadas. #deepshit #forreal

Resultou gente! Se estão numa fase em que precisam de um “abanão”, experimentem isto.

Se não se sentirem bravos o suficiente para lidarem apenas com vocês próprios durante 3 dias, experimentem meditar por 10 minutos – Headspace é uma grande ajuda.

tenor (6)


Agradecimentos para todas as pessoas que trabalharam neste fim de semana no Karuna Retreat Center apenas a troco de boa vontade e acordaram cedo para cozinhar, limpar e garantir que a tua estadia foi a melhor possível e que a experiência foi única. Missão cumprida.

Ajuda o pêlo a crescer!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.