Pêlo na Venta experimenta | Serviço de Voluntariado Europeu

Para aqueles que leram o sobre deste blog, já sabem que em 2013 me cansei de andar sempre aos pinchos e a dançar o Tchu-Tchá-Tchá e me aventurei num projeto de voluntariado lá fora: Um aviãozinho militar atirou uma bomba ao ar, a que terra foi parar? Rei-n’u-ni-do!

Eu nunca tinha saído do país, quanto mais andar de avião! É verdade, com 26 anos eu nunca tinha passado as fronteiras, nem a pé, nem a nado, nem a voar.

Correção: afinal estive em Espanha (uns 10 km além fronteira, por cerca de uma hora), fui lembrada por um amigo que me estragou a piada da virgem das viagens que vou fazer mais à frente mas tem toda a razão. Fomos lá de carro e apanhamos uma overdose de Doritos na viagem.

No entanto, motivada por viver uma experiência diferente, e como sempre quis conhecer o Reino Unido, arranjei maneira de alguém me pagar as viagens e a estadia – se estavam a pensar que fui lá motivada por uma causa nobre, vou já admitir que fui apenas com ela fisgada.

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Alguém me tinha já falado deste projeto de Serviço de Voluntariado Europeu e por isso informei-me na minha cidade como me candidatar. “Desculpa Daniela mas a nossa organização não tem projetos no UK. Tenta encontrar uma organização que faça projetos lá.” E levei assim com a primeira porta na cara. Mas não me fiquei… fui para casa e comecei a procurar organizações que fizessem este tipo de projetos. Encontrei o YMCA em Bath e candidatei-me diretamente.

Fui umas das quatro pessoas selecionadas entre mais de cento e muitas candidaturas! “Daniela, por favor envia-nos os dados da tua organização de envio.” Eeeerrrr… Como assim organização… de envio? Eu não tinha nada. Não sabia sequer que era preciso uma organização “de envio”. Só aqui me apercebi que, se calhar, tinha saltado uma parte importante. Mas, ainda assim, tinha sido eu uma das escolhidas por isso mais valia ser honesta, pedir ajuda e explicar que não tinha falado com nenhuma organização de envio.

Eles foram uns fixes e arranjaram-me uma – Pro-Atlântico. Feito. UK, here I come.

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A descolagem

E eis que, quase de um dia para o outro, a (quase) virgem das viagens faz as malas e manda-se para outro país, para uma cidade chamada “Banho” – que teve de ir ver ao mapa onde ficava, completamente por conta dela, sozinha, sem um plano muito bem definido de como lá chegar, com 70 libras no bolso e uma mãe de coração apertado em casa. Ah, como fui corajosa! #deusnocomando

A coragem passa de imediato assim que o avião descola. Talvez por um misto enorme de sensações: adrenalina, euforia, medo, incerteza… e desato numa choradeira sufocada enquanto a alma caridosa ao meu lado olha para mim e me diz “calma, respire fundo. É a primeira vez que voa?” – Oh amiga, soubesses tu quantas primeiras vezes eu estou prestes a ter! Sorri só. Depois até dormi uma soneca.

Após quatro horas de escala em Bruxelas e uma prova de orientação entre 109 gates, olho lá para fora e vejo uma espécie de avioneta, daquelas com hélices fora dos motores e penso para mim: “Deus me livre de eu ir numa coisa daquelas…” Ora adivinhem lá? Isso mesmo. Aquilo, lá em cima, parecia um autocarro com asas, mas deram me amendoins para pesticar.

Saio no aeroporto de Bristol, lá apanho o autocarro que me leva a Bristol Temple Meads (comboios) e… F#deu! Se eu achava que S. Bento era confuso… Ali estava literalmente a olhar para um painel em chinês: Não está escrito Bath em lado nenhum! Eu não sei se fica para sul ou norte e recebo o primeiro sinal de benção divina: um jovem simpático lá me explicou para que linha tinha de ir. Chego a Bath perto das 01h00 da manhã, com 35 quilos de bagagem mas com um sorriso interior do tamanho do universo, ainda meia descrente do que estou a fazer.

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O acolhimento

Sou recebida euforicamente pelos meus novos três camaradas: a Lena, my sweet russian girl; o Gérémy, my dandy french boy; e o Javi, o espanhol problemático de quem nunca me vou esquecer porque após um mês de lá estar discutimos e ele mandou-me calar aproximando o dedo da boca com um shiuu ao que eu pude finalmente na vida real responder com um: “YOU DON’T SHUSH ME!” – acabou por ser expulso do programa pouco depois… because reasons.

Os primeiros dias são de folia, aventura, exploração e muita gente em contra-mão. Lembro-me de um dia ir no autocarro e o motorista ter-se enganado no caminho ao que uma senhora gritou “Sir, you’re going in the wrong direction!”. Ao que eu pensei “F#ck yeah, someone finally noticed!”.

Trabalhava em vários projetos: num ginásio, num infantário, numa escola em atividades após aulas e num café. Reparo que começo a ficar muito cansada. E cansada porquê? Porque eu não percebo nada daquele british accent! A sério, o inglês britânico que ouvimos nas Sitcom já vem filtrado, gente. Eles não falam assim… aliás, eles não falam. Eles grunhem de uma forma elegante, ou very posh, e a atividade cerebral necessária para desencriptar o que eles dizem é enorme. Em cima disto, têm o seu próprio lingo, como semilhas estão para batatas, estão a ver?

Uma senhora pergunta-me: “Sorry, can you tell me where’s the loo, please?” – Ao que eu respondo – “Sorry, I don’t know where’s Louise…” (porque a organizadora que nos recebeu se chamava Louise e… eu achei que estava à procura dela. Não percebi que a senhora queria o WC).

No ginásio atendia os telefones para as marcações de aulas :“Sorry, can you spell it again, please?” (tens de começar sempre com sorry e acabar sempre com please) E nem a soletrar me safava porque ficava nervosa e trocava o “ái” com “ei” e não sabia se se escrevia com a ou com i… ou um deles é e? Ah, esse é “i”, ou o “e” é que é o é? Já estão a ver o filme, certo?

No infantário, onde estava a trabalhar, um menino disse-me: “I need a wee!” – e eu pensei para mim – “ahah mimado, aqui não há Wii para ninguém!” (Achei que a criança queria jogar Nintendo – I’m an idiot).

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Random fact : No infantário apercebi-me que as nossas músicas infantis só incentivam a violência e o terror… Enquanto eles cantam coisas como Twinkle twinkle, little star e Entsy wintsy spider… Eu fico imediatamente embaraçada quando a educadora me pede para cantar uma das nossas…

I threw the stick at the cat-cat-cat
But the cat-cat-cat didn’t die-die-die
Mrs. Chica-ca-ca got scared-ed-ed
With the scream, with the scream,
That the cat gave, Meow!

 

A turista

Mas nem só de trabalho vivem os voluntários e, a esta altura, estava no UK também uma das minhas melhores amigas pelo que decidimos ir juntas a Londres.

Disclaimer: Os próximos relatos são muito embaraçosos, dignos de duas autênticas incultas desnorteadas, e para proteger pelo menos uma de nós, não vou revelar a identidade da outra e vou dar-lhe o nome fictício –  Zéza. Quando ficar demasiado embaraçoso também não vou revelar quem disse o quê e vou chamar apenas de “Coisa” e assim podem fazer apostas sobre quem era quem.

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Encontramo-nos em London Victoria e para quê mapas? Quem precisa disso, pleaaaase… Vamos à descoberta… a pé… vamos pelo cheiro à procura do mítico Big Ben. Oh boy… mas que dia. Olhando bem para trás admito que fomos burras – prometemos uma à outra que não íamos falar sobre este dia, tamanho o embaraço, mas é demasiado bom para guardar para nós.

E encontramos uma linda catedral cheia de gente. “Oh… Coisa, aquilo deve ser importante, está lá muita gente a tirar fotos, vamos também!” Era a Westminster Cathedral. (Calma… ainda fica pior.) Era a Westminster Cathedral que nós confundimos com a Westminster Abbey… (e ainda fica pior) era onde uma de nós achou que a Lady Di tinha casado… mas que afinal foi onde foi feito o funeral… e a princesa deve estar às cambalhotas com a nossa ignorância.

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Andamos mais um pouco e vemos ao longe uma pequena torre! “Olha Coisa, o Big Ben é já ali!” e a outra responde “O quê? Aquela merdinha ali? Não é nada. É p’raí uma igreja qualquer que o Big Ben é muito maior!”. Vamo-nos aproximando… e: “Oh é mesmo o Big Ben aquilo! E era. Ficamos desiludidas (e envergonhadas) e sentimo-nos defraudadas! Afinal o Big Ben, não era assim tão big. Não nos julguem, nós basicamente estávamos perdidas, por isso… era fácil não ter certeza, não? Não? … Não, ok.

E o que é que duas tugas reparam logo no meio da ponte? Ora como típicas parolas orgulhosas que somos, vimos logo as formas fálicas feitas pelo sol nos ró-có-cós da ponte. São mesmo pilas! Aquilo que eu sempre pensei que fosse uma piada em photoshop… são mesmo pilas!

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Encontramos outro tuga que nos pergunta direções. E logo a quem.. Dissemos que não sabíamos onde ficava o que senhor queria e eu termino com um “Xau, beijinhos!” – porquê beijinhos… Também não sei. Acho que me deixei levar pela emoção de encontrar outro tuga.

Estamos nós já cansadas, com quase seis horas nas solas, já há bolhas de água nos calcanhares e, não sei onde estávamos, mas queríamos comer. “Oh Zéza vamos a um Mac, que assim sabemos com o que contar.” Mas já tínhamos entrado por Londres dentro, e avistar um McDonald’s… está bem Laura. Decidimos perguntar a um senhor:

– Excuse me sir, do you know where’s the closest McDonald’s?
– Yeah, Liverpool Street!

Viramos costas, olhamos uma para a outra e uma de nós diz: “Liverpool? A sério que não há um mais perto?”

Fim.


Passados 6 meses recebi uma chamada para uma entrevista de trabalho cá e voltei para Portugal. Ia acabar por ser expulsa anyway, não pelo Brexit, mas por não ter os padrões mínimos de culta geral sobre o UK naquela altura.

Ajuda o pêlo a crescer!

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