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Pêlo na Venta explica | Stand-Up Comedy – Como começar?

Foi há cerca de 16 anos que, num canal nacional, nos deparámos com o primeiro programa de Stand-Up Comedy – o lendário Levanta-te e Ri. Seguiu-se um longo período sem ouvirmos falar de novos talentos, até que a comédia tomou conta dos palcos de várias cidades e trouxe na mala aspirantes a humoristas cheios de ideias e vontade de fazer rir.

Nunca foi tão fácil começar a fazer Stand-Up Comedy: Há locais para atuar, está “na moda”, as pessoas estão recetivas e existe uma tonelada de informação na internet para te ajudar – tipo este artigo.

Atenção que eu não sou nenhuma Monja Coen da comédia e tudo o que partilho abaixo são apenas notas pessoais e pontos que acho úteis para tentar ajudar quem está a começar. O artigo é extenso mas considera isto um mini-workshop grátis. Se correr mal, não aceito reclamações nem reembolsos. No entanto, estou totalmente disponível para inputs e feedbacks construtivos.

Por outro lado, se achas que estás pronto e que já sabes tudo o que precisas, força! Este artigo não é para ti. Atira-te de cabeça e depois diz como correu. Na verdade, foi assim que eu fiz… 

Claramente, não existe uma fórmula para o sucesso – caso contrário eu já estaria a fazer solos e a encher teatros – mas partilho aqui 5 dicas úteis para que a tua 1ª vez doa menos que a minha:.

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1. Toma notas e Encontra os teus “motores” para piadas

A maior parte da malta que quer começar não tem a certeza sobre o que quer falar. Se és um alien completo ao mundo da comédia, a primeira dica é: Recolhe ideias, observa o mundo à tua volta, tira notas e discute-as com os teus amigos.

O teu material de comédia ou o teu “motor” para uma piada pode estar em qualquer lugar ou nas mais pequenas coisas: numa noite de copos com amigos, na pausa com os teus colegas de trabalho, num jantar de família, num evento social, na fila do super-mercado e até num funeral. Sim, num funeral.

Estive em 3 neste último ano e posso dizer-te que em todos aconteceram coisas insólitas, das quais só não me ri no momento porque era capaz de ser chato. Ri-me depois:
– Ouvi toques de telemóvel constrangedores, como a clássico Mafiosa, onde todo o mundo aqui tá bem, excepto o morto… e todo o mundo à volta dele;
– Ouvi flatulência em stereo, e fui questionada por um familiar com o ar mais sério desta vida, sussurando-me ao ouvido: “A tia Josefa acabou de dar um peido, ou foi impressão minha?”;
– Ouvi discussões sobre o outfit do falecido e roupa de cama escolhida para fazer pandã com o caixão: “Não gosto de ver o véu na cara, faz-me lembrar os mortos.”

E a lista continua… Se algo é engraçado para ti, é provável que seja para mais alguém. Por isso, saca do bloco de notas e escreve tudo sem te preocupares com a piada final. Numa primeira fase aponta apenas ideias e mais tarde volta para as desenvolver.

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2. descobre a tua “voz” observando os outros

Cada comediante acabará por descobrir a sua voz, o seu estilo de comunicação e formas de fazer humor. Podes aprender muito através da observação e por isso, a minha 2ª dica é: Vai assistir a espetáculos de Stand-Up, frequenta clubes de comédia, devora os especiais de Stand-Up Comedy do Netflix e percebe com quais comediantes ou tipo de humor mais te identificas.

• Linguagem verbal vs linguagem corporal: Se por um lado temos um Bruno Nogueira que permanece quieto em palco e quase nunca mostra expressões faciais, por outro lado temos uma Iliza Shlesinger que corre o palco de um lado ao outro e cujas expressões corporais, e até mesmo vozes personificadas, são  por si só engraçadas.

• One-Liners vs Storytelling: Podes ser um Jimmy Carr, com um set de Stand-Up feito praticamente com piadas curtas, ou podes ser um contador de histórias, como um Bill Burr, que se baseia no quotidiano e temas mais transversais.

• Humor para nichos vs Humor que agrada a todos: Do que é que gostas mais? Piadas sobre humor negro? Comparações entre as mulheres, homens e os “outros”? Piadas sobre situações que acontecem diariamente? Política? Atualidade? Humor absurdo?

Pela minha experiência, sugiro apenas que não fales sobre temas que não gostas, que não dominas ou que te deixam desconfortável e claro, sê sempre autêntico. Se a política te aborrece ou se é um tema sobre o qual não estás informado, as pessoas vão sentir o teu desconforto e a tua falta de à vontade para falares sobre esses tópicos.

Eu, por exemplo, gosto de humor negro, mas não estou confortável em fazer piadas sobre pedofilia. Também não faço piadas sobre futebol, porque não domino o tema. Posso ter uma piada muito boa sobre o Bruno de Carvalho, mas se alguém do público ripostar – sim, isso acontece e vai-te acontecer – ficaria desarmada porque não faço ideia do que estou a falar.

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3. Como escrever as tuas piadas e construir o teu set

Acho que não preciso dizer que copiar piadas de outros comediantes, faz de ti um merdas. Autêntico, recordas-te? É melhor fazer uma “má” piada do que uma roubada. Criatividade paralela é um fenómeno que acontece, mas se estás propositadamente a usar textos de outros para criares o teu set, isto não é para ti. Decora texto e faz teatro.

Mas então por onde começo? Sabes aquelas piadas secas sobre buraquinhos na parede e pontinhos de cores variadas? Ou aquele momento em que estás a conversar com um grupo de amigos e alguém interrompe para dizer uma coisa parva? A maioria das pessoas vai rir e isso acontece pelo efeito surpresa ou desvio da atenção do tópico da conversa para outra coisa completamente aleatória. Nas bíblias da comédia isto explica-se com duas fases:

1. Setup: basicamente é uma introdução sobre o que queres falar e serve para criar expetativa. É uma espécie de preliminares. Começa com textos curtos, que criem interesse e que garantam que tens a atenção do público até ao momento final. Não contes uma história, qual Saramago, cheia de detalhes irrelevantes para o público. Less is more!

Por exemplo, não sejas a tia Josefa que, para contar que foi à farmácia comprar ben-u-ron, te explica qual o autocarro que apanhou, como ia vestida, como estava o tempo, o que lhe contou o S. Lino do talho quando se cruzou com ela no caminho para levar o neto à escola, que é filho do irmão mais velho divorciado, que está agora casado com a Marília da Fruta Fresca, que entretanto emigrou para a França porque tem lá uma prima que trabalha nas limpezas… (este por acaso é um mau exemplo porque a minha descrição detalhada resultou num texto que, se me permites a modéstia, é engraçado…. cof-cof).

2. Punchline: É a conclusão engraçada ou inesperada da história que tem como objetivo fazer as pessoas rir. É uma frase, callback, expressão ou ação que leva o público a mudar abruptamente da interpretação mais óbvia para uma interpretação inesperada.

Setup: O meu namorado não se chateia por eu fazer piadas com ele, porque o sexo compensa…
Punchline: … eu levo-lhe menos 10 euros.

Claro que os teus bits não precisam de estar todos construídos seguindo exatamente esta estrutura. Nem a história acaba aqui: Depois de uma punchline podem seguir-se as chamadas tags, que basicamente são acrescentos à história, ou se quiseres chamar-lhes, sub-puchlines:

Setup: O meu namorado não se chateia por eu fazer piadas com ele, porque o sexo compensa…
Punchline: … eu levo-lhe menos 10 euros;
Tag 1: … na BlackFriday;
Tag 2: … e se usar o meu cupão ofereço uma manteiga de amendoim.

Esta “fórmula” pode ajudar-te muito a escrever e organizar o teu texto. Outras formas de desenvolveres os teus “motores” para piadas são:

• Criar listas: Começa com uma ideia e explora uma lista de 10 a 15 possibilidades de finais para essa mesma história. Vais reparar que as primeiras opções vão ser as mais óbvias, mas a certa altura vais ter de começar a aparvalhar para preencher essa lista. Exemplo:

Porque é que o padre não rezou a missa:
1. Porque adormeceu;
2. Porque a igreja estava em obras;
3. Porque fez greve pelas condições de trabalho;
[…]
7. Porque a tia Josefa foi confessar-se e não se calava com a história sobre o Sr. Lino do talho; 

Fazer jogos e inventar hipóteses: Usa aqueles jogos clássicos que fazes entre amigos numa noite de copos: o jogo dos dilemas que começam com “preferias…”; inventar histórias surrealistas como o mexicano homossexual de origem islâmica; outras brincadeiras que permitem explorar possibilidades para cada ideia, imaginando outros cenários aleatórios, dando resposta a questões como  “e se…”. Exemplo:

Os homens fazem xixi em pé.
E se… fazem isto porque sentados batem com o pirilau na beira da sanita;
E se… fazem isto porque sentados demora mais para puxar as calças se aparecer um rato;
E se… fazem isto porque sentados não dá para escrever o nome deles.

Especificar ou usar metáforas: Substitui termos/ personagens/ situações generalistas por outras muito específicas ou metáforas. Experimenta dizer a mesma coisa por outras palavras menos óbvias, ou recorre a expressões aparentemente desajustadas que acabam por traduzir perfeitamente o que pretendes. Valem hipérboles, ironia, sarcasmo, metáforas, etc. Exemplo: Neste gif, tens a Ali Wong a usar metáforas para descrever o seu corpitxo.

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• Usar mímica, caricaturas ou imitações: Tenta contar a alguém a tua história pelo uso de mímica. Recorre a personagens ou faz uma caricatura da pessoa (dando destaque exagerado a detalhes da mesma). Caso sejas uma pessoa expressiva e/ ou desinibida, já levas um ponto de avanço porque será mais fácil e natural brincar com o teu corpo. Usa gestos amplos, sem medo de que pareçam exagerados. Exemplo: No trailer do especial Netflix da Iliza Shlesinger é possível vê-la assumir vários papeis e usar a voz e expressões corporais para dar mais ênfase aos seus textos.

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4. Como escolher um local ou comedy club

Quando eu fiz Stand-Up Comedy pela primeira vez (ou quando tentei fazer, será mais correto dizer assim), não quis que ninguém conhecido estivesse a ver, essencialmente por um motivo: Se corresse mal, ninguém me conhecia. Hoje em dia, por exemplo, sinto-me muito mais à vontade se estiver numa sala onde sei que estão alguns amigos. O motivo é parecido, mas se correr mal, tenho lá amigos para me pagarem cerveja no fim.

Há malta que não gosta de atuar com amigos na sala por vários motivos, sendo que um deles é sentirem que estes podem influenciar o ambiente da sala. Ou seja, sentir que de alguma forma estão a fazer batota. Por outro lado, ter a sala cheia de amigos e familiares ou outros comediantes também pode não ser a melhor experiência porque podes sentir-te mais pressionado para “ter piada”.

Portanto, pensa em que ambiente te sentirás mais confortável (e que permitirá também que disfrutes). Por exemplo, espaços mais pequenos podem deixar-te mais confortável e mais confiante. No entanto, pedir ao Sr. Manel do Café Central da Arreconchencha de Baixo para te deixar fazer lá uma experiência pode não correr como esperas ao seres interrompido pelo Sr. Lino com algo do género “Olhe, peça aí ao microfone mais uma rodada!”.

O meu conselho é que faças a tua estreia num clube de comédia, pelo simples facto de que as pessoas já estão habituadas a ver lá coisas deste tipo e, à partida, vão deixar-te fazer o teu trabalho. O Guilherme Duarte – o gajo do Por Falar Noutra Coisa – é um fofo e já fez a papinha toda com uma lista de spots que podes consultar aqui. Como alternativa, segue a página de Instagram @humorhiena: Esta malta está a fazer um excelente trabalho de divulgação da comédia e humor em Portugal, por isso vais querer estar atento.

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5. Técnicas para a estreia em palco

“Oh Dani, eu mal tenho o texto decorado, vou agora preocupar-me com técnicas!” Calma, deixo-te aqui apenas coisas básicas que podes “ensaiar” antes da tua primeira performance.

Filma-te: Faz um vídeo caseiro (#wink) e estuda-o. Tens tiques? Tens alguma “muleta” no discurso? Não sabes o que fazer às mãos? Tudo isso pode ser corrigido rapidamente, bastando apenas teres noção daquilo que o teu corpo faz inconscientemente.

Por exemplo, eu mexia imenso no cabelo e no fio do microfone – isto distrai o público do que estás a dizer; Nas pausas entre frases fazia um estalido estúpido com a boca e usava imensas vezes a palavra “gente” para me dirigir ao público – assim que as pessoas se apercebem disto, deixam de te ouvir e ficam só à espera da próxima vez que vais fazer determinado som, ou usar determinada expressão; Há uma data de pormenores de que não terás noção, a menos que te observes de fora.

Cábulas: Se estás nervoso, inseguro ou com medo que te dê uma branca, a única coisa que posso dizer para te deixar descansado é: vai acontecer. Em algum momento na tua vida de comediante, vais ter uma branca. Aceita, dói menos.

Não tenhas receio de levar contigo uma cábula com algumas palavras chave ou a ordem dos tópicos sobre os quais vais falar. Leva o teu “alinhamento” num bolso ou coloca-o no banquinho junto à tua bebida, assim que entrares em palco (exaaaato, é para isso que o banco lá está). No entanto, tenta recorrer às cábulas apenas quando for mesmo necessário – não vás para o palco ler a 1ª Epistola de S. Paulo aos Coríntios.

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Regra dos três R’s: Se te der uma branca, se te enganares ou se uma piada correr mal, sê honesto. És uma pessoa, e herrar é humano. Brinca com a situação e continua com o teu texto. A maior parte das pessoas vai relaxar se tu relaxares e ao brincares com a situação toda a gente descontrai, incluindo tu. É importante dizeres as tuas piadas (vais estar focado em pouco mais do que isso) mas é igualmente importante criar ligação com o público e proporcionar um ambiente descontraído. Lembra-te da regra dos três R’s que acabei de inventar agora mesmo: Relaxa, Respira, Recomeça.

• Não tenhas pressa e usa os silêncios: Nas primeiras vezes, faz textos curtos (5 a 7 minutos) e não tenhas pressa para acabar. Temos tendência natural para acelerar o discurso quando estamos em situações de nervosismo, mas falares com calma e com um discurso claro é muito importante.

O tempo em silêncio é também algo com que precisas aprender a ficar confortável. Cinco segundos na tua cabeça são meio segundo para o público. Aproveita os momentos de riso e deixa que o público faça a sua parte – não interrompas as gargalhadas com a piada seguinte. Deixa digerir e depois sim, avança.

• Estuda: Como em todas as artes e em tudo na vida, há sempre algo mais que podes aprender. Pesquisa, vê vídeos, visita blogues sobre humor, lê livros e aprende com os outros. Há algum tempo descobri uma data de vídeos que me ajudaram muito. Deixo-te aqui o canal. A qualidade dos vídeos não é a melhor, mas o conteúdo é bom. Eu acho.

• Repete: Depois da primeira vez, por muito que tenha doído, tenta repetir: À medida que te vais sentindo mais à vontade irão surgir novas piadas – até improvisadas, que podes aproveitar para as próximas vezes. Não tenhas medo de repetir textos em vários locais. Se o Aldo Lima pode andar há 10 anos com as mesmas piadas, tu também podes! – “Buhhhh a mandar bocas sobre comediantes, que falta de fair play.” – é mentira?

Se precisas de uma ajuda adicional, existem também vários cursos e formações disponíveis. No entanto, depois deste artigo acho que estás pronto. – “Buhhhh que convencida e armada em boa.”  – é mentira? Por acaso é,  não sou convencida…

Se sempre quiseste experimentar como é:
– estar vulnerável;
– armado apenas com um par de piadas numa mão e microfone na outra;
– ficar em frente a uma data de gente sentada confortavelmente de braços cruzados e olhar desconfiado;
– ser brindado com expressões no rosto que se traduzem em “faz-me lá rir”;
este foi o meu guia para principiantes.

Deixo aqui o canal aberto para partilharem experiências, opiniões e trocas de cusp… ideias! Troca de ideias! Partilhem coisas e siga… “Pr’ó paaaaalco!”

Ajuda o pêlo a crescer!

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