Pêlo na Venta desabafa | “Tenho um íman para atrair cocó em transportes públicos”

Faz uns largos anos que já não andava no metro do Porto, com a frequência que nos últimos tempos tenho andado. Rapidamente cheguei à conclusão de que não tenho saudades. Na verdade, tenho medo.

Recordo-me de um episódio memorável, de há uns anos atrás, que acaba por ter o seu quê de graça e vem literalmente justificar o meu desabafo abaixo. Sim, literalmente, pois mete cocó.

Subitamente começou a cheirar mal que tolhia… um cheiro característico a, vamos chamar as coisas pelos nomes – merda, capaz de atrair um moscaréu, não estivessem as portas do metro fechadas. Nisto, os viajantes começaram a manifestar o seu incómodo, o que me permitiu assistir ao seguinte belo dialogo:

Pessoa A: – Ai credo, cheira tão mal!
Pessoa B: – Deve ser fralda suja…
Pessoa A: – Fralda não é. Tenho dois filhos e nunca a merda deles cheirou assim!

Acontece que realmente era cocó: Uma jovem com muito azar, naquele dia, embarcou no metro com um intestino tão agoniado que nem as paragens de 3 em 3 minutos foram capazes de a salvar de um exovalhamento público.

Das duas uma: Ou o karma dela é um karma de merda (loles), ou todos os passageiros daquela carruagem fizeram muito mal aos seus antepassados e, na verdade, ela foi apenas uma mártir enviada para que sofrêssemos todos tal penitência.

Foi uma das minhas últimas viagens de metro.

No passado fim de semana, tive de voltar a utilizar este meio de transporte que, supostamente, surge para que todos possam comodamente fazer viagens a um preço acessível, sem grandes despesas e sem o stresse de ter de conduzir um carro em pleno centro da cidade.

Mas comodamente o tanas! Se a viagem acima descrita não me deixou saudades, a próxima que vou contar deixou-me com medo de andar no metro do Porto.

Eram 6h45 de um Domingo e a viagem iria durar 58 minutos (era uma linha quase completa). Achei que iria ser uma viagem calma, silenciosa, com poucas pessoas e a maioria cheia de sono, tal como eu. Eram realmente poucas pessoas… o problema estava precisamente nessas poucas pessoas que pareceram ter sido selecionadas a dedo para eu estar a escrever sobre isto, hoje.

Entram duas meninas e um menino, completamente bêbados e, vou arriscar dizer, sob o efeito de estupefacientes. Entraram as berros, a meterem-se desagradavelmente com toda a gente, incluindo eu.

Estava sossegadinha no meu canto, a ler o meu livrinho, quando uma das bestas – acreditem, eram bestas – se mete comigo: “Esta vai ser poeta… Estás a ler? Vais ser poeta?” E foi aqui que lhe atirei com o livro à testa. Pelo menos imaginei-me a fazê-lo mas apenas ignorei com sucesso este discurso que, embora vindo de uma besta, teve muito pouco de bestial.

Mais tarde, atiraram-me com uma daquelas embalagens de molho de salsa do Mac. Tudo bem que eu gosto de molho de salsa… mas também não é preciso atirarem-me com ele ao focinho. Um jovem que ia ao lado teve uma sorte semelhante, mas calharam-lhe batatas fritas.

Considerei mudar de lugar e até sair e apanhar um novo metro, mas confesso que a mania da perseguição se apoderou de mim e da ideia de que eles iriam para onde eu fosse.

Depois de terem gozado e insultado fortemente com um senhor que ia no metro, imagine-se, a dormir, acharam boa ideia fazer e fumar ali um choura – como lhe chamaram.

Só aqui é que um funcionário do metro os mandou calar e apagar aquilo. Atirar lixo e insultar pessoas ainda vá lá… agora fumar é que não. Há limites. Lá apagaram aquilo mas não sem antes discutir quantos decibéis são permitidos alcançar naquele horário e continuaram a armar a put@ – como lhe chamaram.

Finalmente sairam numa das paragens, mas não sem antes tentar armar porrada com dois miúdos que, na naturalidade e estupidez das suas inconscientes adolescências, acharam aquilo tudo muito divertido. “Oh palhaço, estás-te a rir-te? Parto-te a boca toda! – exclamaram as bestas (sim, foi mesmo assim: estas-te-a-rir-te. Devem ser primos do JJ), enquanto lhe atiraram uma garrafa de água mal fechada, que ainda me molhou a caxemira.

O palhaço – como lhe chamaram – esteve quase a ficar sem dentes e eu paguei quase 3 euros para toda esta festa. Para a próxima vou de carro.

Ajuda o pêlo a crescer!

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