Pêlo na Venta experimenta | Tinder

O Tinder é uma espécie de página de anúncios de encontros que existiam (não sei se ainda existem) na revista Maria, mas online. Deixo aqui registada a minha curta experiência, principalmente para eu voltar a ler isto se eventualmente me der na cabeça lá voltar.

Convém desmistificar tabus antes de mais: As pessoas estão lá porque de facto procuram uma outra pessoa (do sexo oposto ou não) para imediato ou futuro relacionamento (com ou sem sexo envolvido) – também não sobram muitas mais opções (eu sei, sou um génio)!

E não há mal nenhum nisto. O que quero dizer é que a percentagem de pessoas que lá está só para fazer “amizades” é muito reduzida. Acontece, mas são mais danos colaterais que ocorrem quando te apercebes que a pessoa com quem estás a falar, pronto… é simpática. #friendzone

Nota do autor: Pai, mãe… não deviam estar a ler isto. O Tinder é mais conhecido como uma app de put@ria ou, por outras palavras, uma app para encontros sexuales. Eu faço parte da pequena percentagem que só usou para conhecer pessoas.

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lol.

Após esta fugaz experiência, e como sei que há muitos curiosos para saberem como funciona mas poucos corajosos e/ou preconceituosos para experimentar, deixo-vos uma espécie de Tinder para totós, baseado no meu test drive (não, não vou começar com metáforas automobilísticas outra vez. Já parei.)

Desta vez temos metáforas à marketer: Criar um perfil no Tinder é basicamente como se estivesses a criar um anúncio sobre ti, mas sem budget. Para quem tem budget (versão paga) há o Tinder Plus e o Tinder Gold, mas vamos focar no orgânico (gratuito).

Estes são alguns dos aspetos a ter em conta e algumas das práticas frequentes que recolhi e compilei após a minha breve análise comercial.

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1º Passo – Estratégia de penetração 

É demasiado fácil a piada… vamos saltar. É importante que identifiques qual o motivo pelo qual estás a considerar inscrever-te e que tipo de pessoas procuras. Tens de saber. Este 1º passo vai influenciar toda a tua experiência. É uma uma espécie de segmentação de mercado.

Há quem esteja lá para clickbait (são os que atiram a bolacha a tudo o que aparece à frente) mas também há quem esteja lá para angariação de leads qualificados (são os que se dão ao trabalho de analisar (dentro do possível) os perfis e fazem uma pré-seleção.

Ou estás lá porque já não podes ouvir mais os teus amigos a dizerem que é uma boa forma de conhecer gente; ou estás lá tipo mirone – só para ver – e encontrar pessoas conhecidas para gozar posteriormente pelo o facto de andarem à queira (que é como quem diz, com o cio); ou estás lá porque procuras explicitamente parceiros para quecas ocasionais e/ou one-night stands; ou estás lá para um mix destas todas; ou, mais raro mas acontece, estás lá porque o mercado está fraco/ saturado e queres conhecer uma malta nova;

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Seja qual for o teu motivo, convém deixar isso claro na descrição do teu perfil. Acho eu. Pelo menos seria útil se todos os prospects, ou seja, utilizadores  levassem esta parte a sério para facilitar na hora de filtrar ofertas (chamar aqui “potenciais clientes” pode ser delicado). Bem na verdade a maior parte até o faz, à sua maneira, sendo bem claro no que ali procura… mas já lá chegamos.

 

2º Passo: Como criar o teu anúncio

Definição do publico-alvo: Podes escolher se queres encontrar homens ou mulheres (não testei, mas se calhar dá para ver ambos), podes selecionar um intervalo de idades em que tens mais interesse, podes decidir mostrar a que distância estás de outras pessoas e ainda escolher a que distância máxima queres ver perfis (para a malta fazer as contas ao Uber, à gasolina e tal…);

 

Fotos do produto: A parte ilustrativa é muito importante e surgem aquelas dúvidas típicas: Ponho a pior foto e assim já toda a gente sabe com o que contar ou a melhor foto para conseguir o máximo de interesse? Uma a fazer a espargata para verem o quão flexível sou #wink ou uma com o gatinho/ cãozinho/ piriquito para mostrar que sou um ser fofinho e sensível? As possibilidades são inúmeras e as motivações incontáveis. Eis alguns exemplos:

  • Foto a fazer escalada – para verem que sou radical;
  • Foto ao lado do Porsche – para mostrar que tenho dinheiro;
  • Foto de bata e estetoscópio – para verem que sou Doutor;
  • Foto na piscina – para acharem que moro numa mansão;
  • Foto de grupo com 10 amigos – para verem que sou buéda social mas que me estou a marimbar para a privacidade deles;
  • Foto dos abdominais a mostrar um pedacinho ali da situação inferior – for the ladies know what they will get (ladies ou boys, sem julgamento aqui);
  • Foto de um modelo qualquer famoso, aka catfishing – a sério? Sabem que não somos todos estúpidos, certo?;
  • Sem foto – boa sorte!

 

Copy descritivo: No sobre, ou “about”, é onde as pessoas se vão auto-filtrar. Queres dizer algo que gere conversões mas também não queres desvalorizar o ativo. Parece que faz parte das boas práticas, por exemplo, dizeres quanto medes e quanto pesas. Mas convém que não digas coisas como, Dotadão ou… 30 beijinhos. Digo eu! Mas… há malta que está lá com a mente (e não só) muito aberta, por isso não vamos julgar. Estes são alguns exemplos comuns:

  • PT/EN/ES/FR/DE/SV.”  – o poliglota que sabe como usar línguas (cof-cof);
  • Sim.” – também vi a versão “Não.”;
  • 18cm” – abaixo de 170cm, para mim são mulheres;
  • for girls who like strap-on” – estava mesmo assim escrito, calculo que o senhor tenha uma prótese, portanto;
  • “Licenciado em sol e praia” – não sei o que dizer sobre este tipo, deve ser moreno;
  • “Estudante na escola da vida” – não vamos ter objetivos em comum;
  • “I’m a cat, I like to lick.” – como assim? Os teus próprios tim-tins?;
  • “Gosto das coisas simples da vida: Comida, viajar, anal e música.” – vou optar por não comentar;
  • 😎💪✍🐱🍽🎮⚽🎧🎶✈ – mais de três emojis seguidos fico confusa;
  • Uma frase motivacional qualquer fofinha;
  • Um texto que na verdade diz algo sobre ti.

 

Gestão de leads: Depois de teres o teu add com os básicos definidos, começamos a analisar as ofertas no mercado. Aparecem os perfis, um por um, e começa a famosa aventura do swipe left (ocultar anúncio) e do swipe right (buy now). Se preferires tens botões, caso fiques confuso ou sejas disléxico. E sentes-te tipo o Manuel Mourão nos Ídolos: Este sim, este não, este parece interessante, este não vai dar, Bubacar.

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Há também um botão para dares Super Likes e o carai (mas só podes atribuir um por dia, por isso precisas escolher bem) e, a este ponto, quando dizes em voz alta “super like” já te partes a rir e as coisas começam a ficar seriamente nada sérias. Se fizeres um Super Like …😂… por engano, já foste. É chato mas mas acontece. Aconteceu-me. E foi chato.

Há ainda um botão para fazeres Boost, que permite que o teu perfil apareça primeiro no rol de ofertas durante 30 minutos (para aqueles mesmo, mesmo desesperados que querem passar à frente na fila) mas tens de ter a versão paga.

Se ambos tiverem “gostado” do perfil um do outro, dá-se o chamado match e apenas assim fica aberto um canal de comunicação – o chat.

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Gestão de conversões: O chat é onde se começam a conhecer melhor. Depois marcam-se os primeiros dates, ou, dependendo do teu objetivo na app, podem apenas oferecer uma sessão de sexting ilustrada (que é como quem diz: ter conversas porcas e mandar nudes).

E é aqui que as coisas começam a ficar esquisitas. Surge o primeiro momento de awkwardness: Quem começa a conversa: O que fez primeiro o swipe right ou o último? As senhoras ou os senhores? E lá dizes olá na esperança que do outro lado puxem conversa sobre qualquer coisa. Mas não. Respondem-te apenas com um olá de volta. … Cri-Cri … Cri-Cri … E fica um ambiente forçado, como se fossem dois velhinhos desconhecidos, sentados um ao lado do outro, sozinhos numa sala de espera a falar das chuvadas de Junho.

Quando a conversa parte para o segundo nível – partilha de informação pessoal – parece-se com as salas do Blá Blá (lembram-se? Oi, tb bm? idd? ddtc? o k fzs?).  E pronto… é isto, pelo menos na versão gratuita.

Cuidado com aqueles moços que começam com um Oláaaaaaaaaa de meio metro ou Oi windah e faxem koixax tipo ixto – para este tipo de cancro não precisas de quimio, podes apenas bloquear a conversa e fica resolvido.

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Ainda assim, esta foi a parte menos parva para mim – #eternapoeta. A parte em que me senti realmente estúpida vem a seguir. Ah pois… consegue ficar mais estúpido.  #vergonhaalheia

 

RGPD e Privacy policies: Inexistentes. Como aquilo mostra a distância a que estás, começas a ficar um bocado paranóico. Começas a andar na rua a distribuir olhares desconfiados debaixo dos óculos de sol. Como se fosses uma estrela de Hollywood a tentar passar despercebida: “Olha para o lado que aquele tipo está a olhar para mim. Será que me reconheceu?”

Chegas a qualquer bar e pedes ao jovem “Um café por favor!” e começas a questionar porque está ele a rir-se para ti “deve ser porque sou simpática… se calhar está a reconhecer-me do Tinder… ou será apenas porque me esqueci de limpar um resto de pasta de dentes do queixo”.

Também dei por mim a encontrar pessoas na rua cujos Super Likes …😂… ignorei e ficar com aquele síndrome de ladrão numa bomba de gasolina quando a polícia entra para comprar tabaco: “age normalmente, disfarça, be cool”, e ele, como não houve match, sabe que não devolveste o like e olha para ti como com cara de “sei o que fizeste na passada sexta-feira treze”

Tudo isto é ridiculamente estúpido porque eu nem sequer lá estava em segredo, não é crime, mas de alguma forma julgas-te e auto flagelas-te mentalmente enquanto perguntas: porquê…. porque é que me meto nisto?

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Começas a receber pedidos de amizade aleatórios nas redes sociais de uma espécie de  gente rebelde que decidiu tentar a sua sorte fintando a parte da app em que apenas duas pessoas mutuamente interessadas podem conversar.  #yolo #stalkeralert

Também acontece encontrares lá pessoas conhecidas e pensas “Ia jurar que ele estava casado. Se calhar ela também tem perfil e estão numa relação aberta”. E nestes casos é melhor não arriscar um “Então… Tinder buddy, tudo bem?” até porque já deve ser suficientemente constrangedor para a pessoa a possibilidade de hipoteticamente eu ter percebido que afinal não está contente com o que tem na despensa lá em casa. Calma, eu sei que só lá estão para fazer “amigos”. #tindercode

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E a tua vida, de repente, começa a ficar esquisita. Ele é notificações no trabalho de que recebeste um Super Like (a sério… super like é só hilário. No entanto, no trabalho enquanto estás numa reunião, pode não ser tão engraçado);

Ele é o receio de abrir a app em locais públicos porque sabes que vais ser gratuitamente julgada por olhares coscuvilheiros reprovadores –  “olha mais uma que anda à caça.”;

Ele é decidir a quem dar prioridade nas conversas e sentes que, de alguma forma, já estás a “trair” aqueles a quem não estás a dar atenção;

Ele é o constrangimento de ter de dar ou levar uma tampa e, principalmente, o de teres 30 anos e te submeteres a estas merdas.

– Suspiro profundo – 

Claramente há muita gente que não se preocupa com nada disto o que só prova que estou no sítio errado: O Tinder não é para mim! Ponto.

A experiência para mim foi muito confusa e desconfortável, como já deve ter dado para perceber. Conheci pessoas, de facto, mas não gostei do processo. Não julgo, mas… acho que há formas menos __________ (preencham vocês que eu nem sei que adjetivo usar) para conhecer malta. A tradicional, estão a ver?

Portanto… Tinder Ciao, Tinder ciao, ciao, ciao.

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Nota final: Não sei se estou a infringir alguma regra de Tinder usage do género: não falarás com terceiros sobre o que lá acontece. Se for o caso, avisem que peço desculpa.


Partilha com os teus amigos do bem ou deixa um Super like (😂).

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